“O que o método fenomenológico pretende fazer é nos ensinar a ver e viver a realidade de um modo diferente, a vê-la no significado, na sua evidência radical, na sua racionalidade fundamental.” Thomas Ransom Giles

Como podemos observar pelas palavras do professor Thomas Ransom Giles, a fenomenologia busca explicar o que para o zen simplesmente “é”. No zen e na fenomenologia tudo gira em torno dos seguintes princípios, “mente vazia” e  “retorno as coisas mesmas” de acordo com o idealizador desta metodologia Edmund Husserl.

Para Husserl, o fenômeno não é uma aparência mais ou menos duvidosa; é aquilo que se oferece ao olhar intelectual, à observação pura.

De acordo com Edmund Husserl para se chegar ao elemento essencial que é o alvo da fenomenologia, é preciso partir daquilo que se pode ver e alcançar diretamente, não se deixar deslumbrar por preconceitos e tampouco se desviar do próprio fenômeno, das próprias coisas, pois se trata de interrogá-las na sua própria maneira de se oferecerem.

Mas mesmo parecendo tão próximas, existe uma diferença fundamental entre o zen e a fenomenologia. No zen não se quer esmiuçar o comportamento humano como se quer na fenomenologia, para o zen o que importa é o “não pensar em nada” é o vazio absoluto (entenda-se tal colocação não como um ser humano desprovido de sentidos, mas sim um ser humano que não fica tentando achar problemas ou soluções onde o Universo se encarregará disso).

Entender o pensamento oriental não é realmente tarefa muito simples para um ocidental, pois ele é situado anteriormente ao intelecto, o que o torna muito diferente do que praticamos há séculos.

A estrutura da reflexão fenomenológica tem por maior finalidade superar o egocentrismo de cunho intelectualista; afirmando enfaticamente a preexistência do mundo sobre a reflexão. Seu destino, como nova maneira de filosofar, depende da articulação da ciência com a existência concreta, com a experiência, com aquilo que é.

Nesse sentido, a fenomenologia é importante pois nos mostra que antes de qualquer desenvolvimento tecnológico que possa ter havido nos últimos tempos, sempre houve “algo” anterior a esse desenvolvimento que é tão decantado pela nossa ciência moderna. O cientista antes de ser cientista é um ser humano como qualquer outro. Ele sente sono, fome, fica com raiva por não conseguir algo e etc.

Nesta tentativa de se reencontrar com as palavras primeiras é que se delineia a proposta e a finalidade máxima da fenomenologia, pois ela vê claramente que por mais que a ciência se desenvolva indefinidamente para frente, o objetivo da qual ela se ocupa será sempre anterior a ela, e se revela a nós como esse infinito mundo da experiência primordial do qual, nem a ciência, nem nenhuma outra forma de conhecimento humano, conseguirá desvendar todos os mistérios.

Merleau Ponty que é citado pela mestranda da Unicamp Julia Paula Motta de Souza Pinto coloca a situação da seguinte forma:

“Retornar as coisas mesmas é antes de tudo a desaprovação da ciência(…). Tudo aquilo que sei do mundo, mesmo por ciência, eu o sei a partir de uma visão minha ou de uma experiência do mundo sem o qual os símbolos da ciência não poderiam dizer nada. Todo universo da ciência é constituído sobre o mundo vivido, e se queremos pensar a própria ciência com rigor, apreciar exatamente seu sentido e seu alcance, precisamos primeiramente despertar essa experiência do mundo da qual ela é a expressão segunda.”

Na verdade o que a fenomenologia quer dizer é que é difícil perceber que relação existe entre o mundo de que fala o físico, e aquele de que fala o místico, ou do qual todos falamos em nossa vida prática e diária. Ele percebe que existe uma tentação em se considerar a verdade científica, em seu sentido rigoroso, como realidade última e também única, em face da qual modos de apreensão subjetivos parecem desqualificados e sem validade. Este discurso objetivo da ciência tende a se apresentar como superior aos demais discursos, e a considerar menor qualquer outra forma de apreensão da realidade, como se a verdade fosse sua propriedade exclusiva, como se o que os mestres zen ou os poetas falassem fossem apenas ilusões e conjecturas imaginativas da verdadeira realidade, que apenas ela, a ciência, pode e julga conhecer de fato.

O que Husserl viu então, é o quão irreal e ilusório era o mundo que a ciência antiga pretendia mostrar.

O que Husserl coloca com sua fenomenologia é que não somente a ciência fala deste mundo, mas o próprio cientista fala neste mundo, e que, portanto, não é absolutamente possível fazer uma ciência ascética, descontaminada, fora da experiência do mundo, pois é aqui que ambos, tanto a ciência quanto o cientista, se localizam. Portanto o cientista não é apenas cientista: ele é pai, irmão, amigo, cidadão, tem lazer (ou deveria…), ouve música, professa crenças e valores… Além disso, no próprio exercício de seu trabalho científico ele nunca, jamais abandona o mundo da vida, simplesmente por ser isso impossível.

A fenomenologia busca, no entanto, a intencionalidade da consciência, quando diz que só existe consciência de alguma coisa, que a consciência está sempre direcionada para algo. Essa noção de intencionalidade é central para a fenomenologia, pois diz respeito diretamente à relação sujeito-objeto. Aqui consciência e objeto não são duas entidades separadas. A intencionalidade faz parte do diálogo entre sujeito e objeto, pois com essa noção de “consciência de”, o objeto se situa dentro do sujeito encerrando assim de vez por todas com o dualismo.

No zen como vimos, às coisas não podem ser entendidas racionalmente, mas apenas apreendidas e observadas por um corpo vivo. Para atingir o zen, é necessário que nos despojemos de nosso intelectualismo, é necessário que enxerguemos além do pensamento discriminativo que a tudo fragmenta, separa e cataloga. Precisamos ser capazes de ir além das estreitezas do pensamento lógico racionalista e recuperar a intuição primordial para ver que tudo é Um.

A fenomenologia entende que o discurso filosófico deve sempre permanecer em contato com essa intuição originária, que Husserl chamou de “o princípio dos princípios”, se não quiser se dissolver em especulações vazias. Ela não se propõe, portanto, a encadear conceitos, propõe voltar à vida, à experiência vivida, tendo como objetivo básico evitar o intelectualismo e a especulação vazia, destituída de sentido e significação. Assim também é o zen, visto que para conhecê-lo é necessário superar as discriminações raciais, pois o zen se localiza anteriormente ao intelecto, no também chamado reino da intuição.

Ainda de acordo com a mestranda Julia Paula e o Doutor Adilson Nascimento de Jesus:

“A fenomenologia procura descrever o real com base numa experiência vivida, da mesma forma que o zen é o puro sentimento de estar vivo, fazer com atenção cada ato a cada momento, respirar conscientemente, e fazer de cada respiração uma ode em louvor ao instante precioso do agora.”

Nossa intenção aqui, foi mostrar que mesmo sendo diferente na essência, o zen e a fenomenologia podem ser campo muito vasto de estudo.

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