Tudo começou em 1882 quando um jo vem de 23 anos chamado Jigoro Kano fundou o Instituto Kodokan, que se tornou a Meca dos ensinamentos sobre o Judô. E em Barueri a tradição do velho mestre japonês é repassada em detalhes por Douglas Montel, faixa preta da modalidade há mais de 20 anos.

Formado em educação física e com a serenidade de um verdadeiro sensei aos 40 anos, Douglas mostra uma grande paciência na conversa com a Revista Bushido Brasil e também com os pequenos discípulos. “Minha vida foi sempre aqui desde muito jovem. Tentei fazer outros esportes, mas foi no Judô que me descobri”, conta.

Com milhares de praticantes e federações espalhadas pelo mundo, o Judô se tornou um dos esportes mais praticados, representando um nicho de mercado fiel e bem definido. Não restringindo seus adeptos a homens com vigor físico e estendendo seus ensinamentos para mulheres, crianças e idosos, a arte teve um aumento significativo no número de amantes.

Douglas Montel tem grande experiência com crianças. Fotos: Fabio Oscar

A arte marcial tem como filosofia integrar corpo e mente. Sua técnica utiliza os músculos e a velocidade de raciocínio para dominar o oponente.

Mestre Jigoro Kano definiu a luta da seguinte forma: “arte em que se usa ao máximo a força física e espiritual.” A vitória, ainda segundo o mestre fundador, representa um fortalecimento espiritual. Nas academias, procura-se passar algo além da luta e do contato físico. Para tornar-se um bom lutador, antes de tudo, é preciso ser um grande ser humano.
Na conversa que tivemos com o mestre Douglas, ele fala entre outras coisas que seu grande espelho foi Aurélio Miguel medalhista olímpico e que o MMA deturpa o verdadeiro sentido e filosofia das artes marciais.

REVISTA BUSHIDO BRASIL – CONTE UM POUCO DA SUA HISTÓRIA

Douglas Montel – Comecei aqui no GRB aos 9 ou 10 anos. Antes disso eu gostava de praticar vôlei e basquete, mas nunca levei muito jeito para os esportes coletivos. Eu era muito introspectivo e foi ai que uma tia minha que já trabalhava por aqui me levou na academia que ficava ali no Jardim Belval. Eu nunca mais parei. Isso foi em 1998. Fui aluno do professor João Davi de Andrade. Fui atleta, estagiário, assistente técnico, técnico, coordenador pedagógico, gestor, gerente e agora novamente estou dando aula e sendo coordenador da modalidade
no município.

RBB – QUEM É SEU GRANDE ÍDOLO NO ESPORTE, AQUELA PESSOA QUE TE SERVIU OU
SERVE DE ESPELHO?

Douglas Montel – Eu sempre gostei do Aurélio Miguel, por tudo que ele representa e é claro por ele ser um medalhista olímpico. Ele é uma grande referência. O mais legal é que anos mais tarde eu consegui treinar com ele. Nós competimos. No último ciclo olímpico dele outro professor meu, o Luciano Matheus, fazia assessoria física para o Aurélio e eu participei intensamente dos treinamentos. Então ele foi meu ídolo quando eu era criança e depois mais velho eu o ajudei nos treinos.

RBB – COM RELAÇÃO AO SEU TIME. O QUE O SENHOR PODE ME FALAR DESSA EQUIPE QUE JÁ FORMOU MEDALHISTAS OLÍMPICOS COMO O FELIPE KITADAI?

Douglas Montel – Aqui é fantástico. A prefeitura fomenta e da livre acesso para as crianças que querem disputar as 19 modalidades oferecidas. Temos aqui um processo muito significativo porque pegamos crianças de 4, 5, 6 anos e ficamos com eles até a fase adulta. Nossa principal meta não é formar atletas, queremos antes de tudo formar cidadãos de bem e com caráter. Isso é muito significativo para nós e melhor ainda é saber que somos uma referência na região.
O esporte como ferramenta educacional não tem igual. Temos um papel primordial na formação das crianças e dos jovens.

RBB – SÃO QUANTAS CRIANÇAS, ADOLESCENTES E ADULTOS SÓ NO JUDÔ?

Douglas Montel – Só no Judô temos mais de 600 alunos e dentre estes eu tenho alguns faixas pretas formados aqui em nossa escola.

RBB – QUAIS BENEFÍCIOS QUE A ARTE MARCIAL PODE TRAZER PARA AS MULHERES?

Douglas Montel – Minha esposa é professora de Judô. Eu venho de uma família tradicional de Judô. Para a mulher, falando especificamente delas, é importante como defesa pessoal, melhora a autoestima, a qualidade de vida e também as questões de interação. Acho isso fundamental.

RBB – O SENHOR É UM CARA TRANQUILO. O SENHOR SE CONSIDERA ZEN? E QUANTO TEMPO É NECESSÁRIO PARA SABER SE UM ALUNO LEVA JEITO PARA O ESPORTE?

Douglas Montel – Eu sou muito tranquilo. Tem que ser quando a gente lida com crianças né. Fazemos um trabalho muito difícil. É complicado você lidar em um ambiente aberto com tanta gente. Mas com relação aos alunos, é necessário no mínimo dez mil horas de treino para sabermos se algum aluno poderá conquistar algo a mais. Não é tão simples como se pensa. Depende de muito treino e muita dedicação. Esse tempo leva de 9 até 10 anos. Com relação a ser zen, eu me considero sim. Pelo menos eu tento. O caminho da arte marcial te leva a isso. Na sociedade moderna nós sabemos que isso é muito complicado, mas neste ponto o Judô me ajuda muito. Então principalmente na frente dos alunos eu procuro sempre me colocar muito calmo. Eu tenho que dar o exemplo e eu tento ser o exemplo.

RBB – O SENHOR GOSTA DE MMA?

Douglas Montel – Eu já gostei mais. O MMA é um fenômeno esportivo com pouco mais de 20 anos. Ele como comunicação é bom, mas para as crianças é um veículo negativo. As crianças se espelham nos atletas e não é aquilo que as artes marciais ensinam e preconizam. Aquilo é um esporte/espetáculo. A luta é uma parte pequena da arte marcial. Ali só se enaltece a luta. Arte marcial para mim é quando você vem com princípio, com filosofia, com ética, e ali não tem isso. Então contribui pouco. Talvez seja bom para os atletas que vivem disso, mas para o todo, aquelas pessoas que trabalham com crianças, jovens, ou seja, a formação, eu acho que joga contra. Essa é a minha opinião.

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