“Quando o arqueiro zen dispara a flecha, ele atinge a si próprio. Nesse momento mágico, ele se ilumina”,  Eugen Herrigel.

Esta metáfora é bastante clara para a nossa proposta de trabalho. Para ser um autêntico arqueiro ou autêntico em tudo na vida, o domínio técnico é insuficiente. É necessário transcender este domínio de forma que ela se torne uma arte sem arte, aquela emanada do inconsciente.

Quantas pessoas vemos fracassarem totalmente na vida mesmo sabendo que têm um domínio técnico excepcional em sua profissão. É justamente esse o motivo de tantos fracassos. O que era para ser uno se tornou dual.

O mestre Eugen Herrigel continua seu raciocínio no livro, ‘A arte cavalheiresca do arqueiro zen’, “no tiro com arco, arqueiro e alvo deixam de ser entidades opostas, mas uma única e mesma realidade.”

É importante frisar que a arte do arco flecha é uma das mais tradicionais artes desenvolvidas desde a época dos samurais e o seu ideal vai muito além do que o olhar ocidental pode alcançar. A meta do arqueiro não é só a de atingir o alvo. O que se pretende nessa arte e em todas as outras artes que compõem o zen é harmonizar e equilibrar o consciente e o inconsciente.

“A diferença mais marcante entre o zen e as demais doutrinas de índole religiosa, filosófica e mística é que, sem jamais sair da nossa vida cotidiana, com tudo o que ela tem de concreto e prático, o zen tem qualquer coisa que o mantém acima e além da banalidade do cotidiano.”

O que pretendemos mostrar aqui é que o ser humano deve, por mais impossível que isso possa parecer, voltar a ter uma ingenuidade infantil, pois só a pureza pode transformar o ser humano. Isso, de acordo com a fenomenologia é o “retorno as coisas mesmas”. Alcançado este estado de evolução espiritual, o homem se torna um artista zen da vida.

Usamos aqui o arco e flecha de forma metafórica, pois obviamente, estamos falando de nossa própria vida.

“Arco e flecha são, por assim dizer, nada mais do que pretextos para vivenciar algo que também poderia ocorrer sem eles; pois são apenas auxiliares para o arqueiro dar o salto último e decisivo.”

É claro que na citação acima, o autor de “A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen”, fala sobre a vivência do satori (iluminação).

Como já dissemos anteriormente, o zen é uma experiência que deve ser vivida e não falada. Nesse contexto, o autor desse livro foi a “luta” para tentar desvendar os caminhos que o levariam a iluminação. Muitas foram as vezes em que fracassou. Por ser ocidental, não enxergava de maneira correta o que o famoso mestre Kenzo Awa lhe falava, pois as parábolas eram muitas.

“Muitas vezes, o mestre não tinha outro remédio a não ser apertar subitamente algum músculo das minhas pernas, em pontos particularmente sensíveis.”

Isto acontecia, pois Herrigel não conseguia relaxar quando empunhava o arco e flecha e, consequentemente, não conseguia relaxar na sua própria vida.

“Quando numa dessas ocasiões, eu lhe disse (ao mestre), à guisa de desculpa, que eu estava me esforçando para permanecer relaxado, replicou: _’Este é o seu maior erro; o senhor se esforça, só pensa nisso. Concentre-se apenas na respiração, como se não tivesse de fazer mais nada!'”

Portanto podemos verificar nas palavras do mestre Kenzo Awa, que um dos primeiros atos para termos o zen em nosso cotidiano é a forma como respiramos. O ato de respirar no zen é considerado de extrema importância. Herrigel viveu a experiência de respirar corretamente e nos coloca esta vivência da seguinte forma:

“Aprendi a deter-me na respiração tão despreocupadamente que, às vezes, tinha a sensação de não respirar, mas de ser respirado, por estranho que pareça.”

Portanto podemos verificar que a respiração correta acarreta um bom desenvolvimento de todos os nossos sentidos.

“O sucesso obtido por essa nova maneira de respirar era evidente demais, a despeito de todos os meus escrúpulos, condicionados pela reflexão típica que fazem os espíritos positivos. Eu já conseguia estirar, relaxadamente, o arco rígido do mestre.”

Ainda embasbacado pela recente descoberta, Herrigel continuou:

“A diferença qualitativa entre essas poucas tentativas satisfatórias e as que com frequência fracassavam fizeram com que eu começasse a entender o que significava estirar o arco espiritualmente.”

O Kyudo, que é a arte do arco e flecha não pode ser trilhado apenas com o treinamento incansável. Como qualquer arte ligada ao zen, podemos dizer que ele é também um modo de vida.

Desta forma, encontramos nessa arte mais uma maneira de encontrarmos o zen em nosso cotidiano.

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