Nos acostumamos no Ocidente a tratar as questões de maneira dual. Sempre temos duplas posições: corpo/mente, céu/inferno, positivo/negativo.

Esta dualidade, que já se apresentava na Grécia Antiga, atravessou séculos e acabou exercendo uma profunda influência em toda tradição europeia que veio a seguir e se perpetuou em nosso mundo ocidental.

Para Sócrates, “o conhecer, a contemplação, o teórico, o intelecto, tinham primazia sobre o operar, a ação, o prático, a vontade.” Este filósofo, que fundamentalmente se ocupou dos problemas da metafísica, ensinava “bem pensar” para “bem viver”. É alicerçado nesse pensamento que propomos como tema “O ZEN NO COTIDIANO”.

Antes de nos aprofundar em tal proposta, devemos elucidar quais as diferenças entre a cultura ocidental e a cultura oriental.

Como já expusemos, foi na Grécia Antiga que o movimento dualístico começou. Porém, o dualismo se expandiu mais e mais na Idade Média, quando a Igreja Católica se apropriou deste pensamento — que ligava o corpo ao pecado para manter seu poder sobre tudo e todos. O corpo era denominado “carne” e tinha que se manter firme e não ceder às tentações de degradação. A forma que a Igreja Medieval achou para dominar o povo era através das obrigações religiosas e sociais. Enfim, na Idade Média era perigoso manifestar os desejos do corpo.

Esse pensamento perdurou por vários séculos. René Descartes, que criou o racionalismo, apesar de questionar a Igreja, continuou tendo o mesmo pensamento em relação ao dualismo, que permitiu a formulação do espírito/matéria. Sua famosa frase, “penso, logo existo” tem levado o ser humano até hoje “a igualar sua identidade somente à sua mente, ao invés de igualá-la ao seu todo”, disse Julia Paula Motta de Souza Pinto. Portanto, no pensamento ocidental, tenta-se dividir algo que para o oriental é indivisível. Não se pode dividir o todo.

Encontramos esta divisão do todo, em nossa maneira de pensar, que é totalmente racional. Será que o pensamento tecnológico racional tem realmente valido a pena? Dizemos isso baseado na grande exploração da mão-de-obra que verificamos nos dias de hoje. Nosso cérebro é formado de duas partes. Uma cuida do racional, outra do intuitivo, então porque é que a dividimos e não usamos o todo deste cérebro?

Será, que este tão decantado desenvolvimento tecnológico racional tem nos levado a algum desenvolvimento humano? Será ele um indicador real do desenvolvimento da sociedade? Onde a valorização da razão tem levado o povo, ocidental e também o oriental, já que a tecnologia por lá é uma das mais avançadas do planeta? Hoje o oriental mesmo não se esquecendo de suas raízes, pratica este método tecnológico racional. Deveríamos, antes de tudo, nos prover da consciência de saber que critérios usar para definir como devemos avaliar o desenvolvimento humano principalmente aqui no ocidente. Ao contrário, não nos permitimos isso porque nos achamos superiores. Este é o pensamento básico da nossa cultura. Somos superiores em tudo. Mas como se pode chamar de desenvolvida uma sociedade que mais e mais vezes faz um uso assustador de remédios em geral para depressão? É mister dizer, que quão mais “desenvolvida” é a sociedade, maior é o uso desses remédios.

Ainda em cima desta proposta de mostrar as diferenças entre o pensar ocidental e o pensar oriental, podemos destacar que o princípio fundamental das sociedades do mundo é o progresso, o desenvolvimento e o crescimento dos bens materiais e dos bens de serviço. Mas como se consegue tudo isso? Consegue-se às custas da exploração das forças da natureza e da energia das pessoas.

Em 16/09/1999, ou seja, quase 20 anos atrás, o jornal “O Estado de São Paulo” publicou matéria que mostrava um levantamento feito pelo BIRD (Banco Mundial), que mostrava que 1/3 da população mundial sobrevivia com menos de 1 dólar por dia. Eram 1,5 bilhão de pessoas que viviam no mundo em extrema situação de miséria. Será esta situação a mais justa? Sobre isso, notamos o que podemos chamar de cultura dos satisfeitos. Estes se isolam dentro de seus condomínios não querendo saber o que acontece lá fora. Eles querem viver na ignorância da devastação das grandes massas da população mundial e também da devastação do nosso planeta. É o dualismo levado ao extremo. – Só ligo para mim, com os outros não tenho nada a ver! Não percebem que o jogo do ganha-perde não ajuda ninguém, mas mesmo assim continuam a jogá-lo.

Frente a esse quadro nada animador, podemos perceber que a ética é utilitarista e antropocêntrica. Temos sido até agora racionalistas, dualistas e cultivado um tipo de desenvolvimento altamente concentrador, explorador de pessoas e de recursos da natureza.

Como podemos observar, vivemos realmente com grande tecnologia em nosso mundo. Em contrapartida, vivemos num mundo totalmente sem busca ética e respeito pelo próximo. Será que realmente vale a pena viver com tanta tecnologia em detrimento das pessoas? Não nos cabe aqui discutir esse tipo de situação, nossa proposta é outra, mas é necessário se pensar nos problemas que a humanidade vive, para quem sabe num futuro próximo, possamos viver, pelo menos, com um pouco mais de respeito um pelo outro.

Esta é a cultura ocidental, que determina o que é bom ou o que é ruim para todos em todos os lugares. Não queremos dizer com isso que nada se aproveita em nossa sociedade, pelo contrário, existe muita coisa boa, mas que deve ser redirecionada para algo maior e melhor. Exemplos não faltam: quando o doutor alemão Leo Szilar descobriu a fissão atômica, algo que poderia ser benéfico para o mundo se tornou o maior artefato de destruição em massa de todos os tempos, a bomba atômica.

No dia 6 de agosto de 2004, completou-se 59 anos que Hiroshima foi destruída pela bomba. No dia anterior, o jornal eletrônico “Folha On-line” veiculou matéria mostrando o então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, aprovando orçamento militar na casa dos US$ 400 bilhões para financiar guerras e pesquisas em armamentos. Não querendo entrar no mérito da questão, pois não somos especialistas em genética e esta não é a discussão proposta, mas dias antes de aprovar o orçamento para guerra, o mesmo presidente vetou a pesquisa com células-tronco. Financiou-se a morte, desprezou-se a vida.

Como vemos, a saída existe, mas existe a necessidade de mudarmos a maneira de pensar. O ser humano deve parar de pensar no mundo sob o prisma do seu próprio interesse em primeiro lugar, acima de tudo.

O futuro que nos é apresentado é deverás problemático, mas não inexorável. Precisamos transmitir para os jovens e para as crianças uma nova maneira de pensar o mundo, sem guerras, sem rancores, elaborando o ódio, sem perspectivas, um mundo mais humano, um mundo com alicerces sólidos, como define Paulo Freire: o mundo de “uma ética universal do ser humano e não do mercado, insensível a todo o reclamo das gentes e abertas à gulodice do lucro. É a ética da solidariedade humana.”

Avaliando toda esta situação no qual o Ocidente está mergulhado, diríamos que o mais importante neste momento é termos a real consciência de que nosso pensamento é literalmente moldado pelos outros, ou seja, ele não é de forma alguma natural. Tudo o que pensamos e como pensamos é proveniente de pessoas que vieram antes de nós. É bom deixar claro também que não existe só uma maneira correta de pensar e que não precisamos nos acorrentar aos pensamentos dos outros. Podemos ter nossos próprios pensamentos e viver a vida de maneira mais agradável e social. Este é o espírito do zen.

Conhecer o pensamento oriental ou pelo menos parte dele é essencial. Não que ele seja melhor, mas devemos conhecê-lo para poder traçar um paralelo entre as duas culturas em um momento de questionamento. A própria ciência e os cientistas já admitem que a ciência não é de forma alguma neutra, pelo contrário, ela é influenciada por valores que muitas vezes precisam ser reexaminados. Portanto, se a tão declamada objetividade científica já não é mais sustentada, esta mesma ciência poderá se mostrar talvez mais humana.

Fundamentalmente a cultura oriental apresenta uma diferença básica em relação à cultura do ocidente. Nela não existe o dualismo. Existe a unidade. Tudo está relacionado a uma só energia, a uma só força. Para o oriental, não existe corpo/alma, positivo/negativo.

Falar de corpo e alma como corpos distintos não existe para o oriental, para eles “existe uma interdependência natural entre todas as coisas” lembra a professora Julia Paula Motta de Souza Pinto. Este fator é perfeitamente explicável, haja vista que enquanto nós do ocidente valorizamos o racional, o oriental valoriza e muito também o intuitivo, que é aquele conhecimento que não se expressa em palavras, mas em atitudes. O intuitivo é uma espécie de unidade entre todas as coisas.

Entender o pensamento oriental não é tarefa fácil para o ocidental, pois ele se situa anterior ao intelecto, o que convenhamos é muito diferente do que conhecemos por aqui. Dentro dessa relação, teremos mais detalhes na matéria em que abordaremos a fenomenologia.

Para os orientais não existem atividades menores. A evolução, a iluminação e o desenvolvimento pessoal somente podem ser alcançados quando se consegue dar pesos iguais para as duas dimensões.

Este pensamento que, para os ocidentais é difícil de enxergar, é natural no cotidiano do oriental. Para sermos zen não é necessário doutrinar-se a não ser que se queira algo além. Nossa ideia aqui é mostrar este pensamento, esta opção de vida do povo oriental, para que possamos escolher, sem a interferência dos outros, o que é melhor para nossas vidas.

Ilustramos o pensamento de que é possível ter o zen em nosso cotidiano com um famoso koan* zen budista:

Certa vez um estudante perguntou ao mestre Joshu:

– Mestre, me diga, por favor, o que eu faço para atingir a iluminação?

Joshu respondeu-lhe:

– O que você faz para atingir a iluminação? Terminaste sua refeição?

– Sim, mestre, terminei.

– Então, vai lavar tuas tigelas!

Este não é o único koan que podemos mostrar para provar que viver o zen no cotidiano, não é nada mais do que fazer tudo da melhor forma possível. Observemos este outro koan:

Aperfeiçoamento Pessoal

Um praticante certa vez perguntou a um mestre zen, que ele  considerava muito sábio:

Quais são os tipos de pessoas que necessitam de aperfeiçoamento pessoal?

Pessoas como eu, comentou o mestre. O praticante ficou espantado:

Um mestre como o senhor precisa de aperfeiçoamento?

O aperfeiçoamento, respondeu o sábio, nada mais é do que vestir-se, ou alimentar-se…

Mas, replicou o praticante, fazemos isso sempre! Imaginava que o aperfeiçoamento significasse algo mais profundo para um mestre.

O que achas que faço todos os dias?, retrucou o mestre. A cada dia, buscando o aperfeiçoamento, faço com cuidado e honestidade os atos comuns do cotidiano. Nada é mais profundo do que isso.

Os orientais são enfáticos em dizer que viver para o zen não é uma coisa separada do que entendemos por vida cotidiana. Enfim elas andam de mãos dadas rumo ao aperfeiçoamento.

Voltando um pouco à Grécia Antiga, verificamos que Platão é dualista, distinguindo de forma estanque a oposição entre o espírito e a matéria. Descartes defende esta linha e diz que das partes se atinge o todo. No oriente, fala-se da inter-relação e unidade entre todas as coisas e nos aponta para a realidade de que o isto está também ligado ao aquilo, que o universo é uma imensa rede de relações.

Diz-se no zen budismo que para entendê-lo é necessário desprezarmos os conceitos de certo e errado, só assim superaremos a dualidade na qual estamos mergulhados.

Precisamos uns dos outros, como o ocidente precisa do oriente e o oriente precisa do ocidente. Os dois são como os hemisférios do nosso cérebro. Um cuida da prática, o outro da imaginação. Um complementa e compensa o outro.

Esta visão sustenta que o universo é constituído por uma imensa teia de relações de tal forma que cada um vive pelo outro, para o outro e com o outro, que o ser humano é um nó de relações voltadas para todas as direções.

Sendo assim chegamos à conclusão de que a terra não contém vida. Ela é vida, como definiu muito bem o professor Leonardo Boff.

A visão que o professor Leonardo Boff tem a respeito dessas relações é que, “o ser humano é um projeto infinito.”

E conclui seu pensamento da seguinte forma:

“A conclusão que tiramos desse fato é que não devemos nos deixar enquadrar por ninguém, por papa nenhum, por governo nenhum, por ideologia nenhuma, por revelação nenhuma. Por nada no mundo, porque tudo é menor.”

Enfim o pensamento oriental é esse, não há dualidade das coisas. Somos todos um nó de relações voltadas para todas as direções, todos nós, o mundo inteiro, o universo inteiro e isso é o básico para entendermos o que o zen pretende e o que pretendermos mostrar ao longo de nossa série de matérias.

 

*Koans são questões levantadas pelo mestre para o discípulo com o objetivo de levá-lo à reflexão essencial que subjaz às conclusões lógicas. O sentido libertário e paradoxal dos koans também pode ser discernido em pequenas frases, histórias, ou mesmo poemas da cultura zen. O koan é um dos mais profundos exercícios de transcendência da racionalização do que nós chamamos de conhecimento. 

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