Em nossa primeira matéria da série fizemos um pequeno resumo sobre o zen. Na sequência mostramos as diferenças entre o modo de pensar ocidental e o modo de pensar oriental. Nesta terceira matéria vamos mergulhar de cabeça e apresentar o zen da forma mais profunda que pudermos.

Definiríamos o zen da seguinte forma: “Zen é uma das escolas do budismo e compreendê-lo através do raciocínio lógico-formal não é uma tarefa muito fácil pois ele é, acima de tudo, uma experiência de caráter não-verbal, que se revela simplesmente inacessível à aproximação puramente literal e erudita. Para saber o que é o zen, não há outra alternativa senão praticá-lo, no estilo ”venha e sinta por você mesmo”, disse Julia Paula Motta de Souza Pinto que defendeu tese de mestrado na Unicamp.

Os primeiros indícios da cultura zen surgiram na Índia com o Buda Sidarta Gautama, por volta do século VI a.C. Ele é o modelo para os seguidores dessa cultura. Sidarta Gautama nasceu em família rica, mas renunciou à riqueza, ao poder e à família aos trinta anos para partir em busca do significado da vida. Com muita determinação, após anos de extrema descrença do que via ao seu redor, Buda sentou-se embaixo de uma árvore e resolveu que de lá só levantaria quando encontrasse resposta para sua pergunta. Após muito meditar, encontrou. Dessa forma, surgiu a cultura budista.

Séculos mais tarde, um mestre de nome Bodhidharma atravessou o Oceano Índico e chegou à China. Sua chegada ao país da Grande Muralha, marcou o início do Ch’an (zen em chinês) naquela região. Era mais ou menos o ano de 520 e o imperador chinês Wu-ti não via a hora de encontrar aquele mestre que, no seu modo de entender, era profundamente iluminado.

Conta-se que, ao encontrar Bodhidharma, o Imperador perguntou:

— Tenho construído muitos templos, copiado inúmeros sutras e ordenado muitos monges desde que me tornei imperador.

— Portanto, pergunto-lhe: qual é o meu mérito?

— Nenhum!, respondeu Bodhidharma.

O imperador insistiu:

— Por que não tenho mérito?

Bodhidharma replicou:

— Fazer as coisas para obter mérito tem um motivo impuro e só revelará o fruto mesquinho do renascimento.

O Imperador, um tanto aborrecido, então, perguntou:

— Qual é o princípio mais importante do budismo?

Ao que Bodhidharma respondeu:

— Um grande vazio. Nada sagrado.

O Imperador, confuso e bastante indignado, inquiriu:

— Quem é este que está diante de mim?

Bodhidharma falou: Eu não sei.

O imperador não entendeu nada e logo depois Bodhidharma cruzou o rio para o templo Shaolin, onde ficou por um período de nove anos em profunda meditação, voltado para uma parede dentro de uma gruta.

Mais tarde o zen foi levado para o Japão onde ganhou um formato mais polido com as escolas Soto e Rinzai. Na Soto, a finalidade é levar o discípulo ao satori (iluminação) de forma gradual. Nela não é preciso modificar o dia-a-dia. Para a escola Soto, a experiência do dia-a-dia era o próprio Tao*.

Na escola Rinzai se usa um método mais abrupto, pois foi criada com a finalidade de economizar tempo do discípulo em busca da iluminação..

Como podemos ver, o zen surgiu e evoluiu a partir de três culturas: a originária indiana, a chinesa com o Tao, que cultuava a naturalidade e era voltada para a vida em sociedade, e a japonesa, com sua forma mais polida que era o modo de vida de sua cultura.

A cultura Zen, portanto, consiste na procura da iluminação através do autoconhecimento. Uma busca que ultrapassa os obstáculos mentais criados por nós mesmos a fim de encontrar a verdade em seu estado puro. Trata-se de uma percepção extra-sensorial das coisas, um ensinamento especial que não envolve palavras e apenas chama a atenção para a verdadeira essência do homem. O Zen é também a prática do autocontrole, da disciplina e da simplicidade no viver.

Podemos observar que o zen tem características das mais válidas para podermos enfrentar o mundo de hoje. Quem diante de uma situação de nervosismo não gostaria de ter autocontrole? Quem hoje não gostaria de viver uma vida com disciplina, no sentido de organização, força de vontade, garra, saúde?

A simplicidade de viver está longe dos nossos lares nos dias de hoje, com raras exceções. Vivemos o que não somos, gastamos o que não temos e nos exibimos a pessoas que mal conhecemos, só para termos status.  A nossa sociedade valorizou um desenvolvimento unilateral, ou seja, o ter.

Conforme diz com o professor Eugen Herrigel “o zen é a “consciência cotidiana”, de acordo com a expressão de Baso Matsu (morto em 788).

Ele complementa:

“Essa ‘consciência cotidiana’ não é outra coisa senão dormir quando se tem sono e comer quando se tem fome. Quando refletimos, deliberamos, conceptualizamos, o inconsciente primário se perde e surge o pensamento. Já não comemos quando comemos, nem dormimos quando dormimos.”

Alcançando tal estado de evolução do espírito, o homem se torna zen. O zen é isso, pouca conversa e muita disciplina. Basta coragem para atingirmos tal estado e sairmos do torpor ao qual estamos mergulhados.

 

Nos países onde se segue a prática do budismo, do taoísmo, enfim, das religiões orientais, é bastante comum pessoas com esse estilo de vida. É válido dizer que a cultura zen tem suas particularidades, como veremos ao longo da série, mas que não impedem que um ocidental se utilize dela para fins benéficos à própria vida. Ela não é cativa dos orientais.

Esta visão da prática do zen, porém, vem mudando em nossa sociedade. De acordo com publicação da revista “Veja”, edição 1868, de 25/08/2004, em matéria assinada pelos jornalistas Okky de Souza e Rosana Zakabi, “no Brasil, estima-se que mais de 1 milhão de pessoas pratiquem meditação(…)” . É um número considerável, haja vista que a nossa sociedade até poucos anos considerava ilegítimos os efeitos benéficos dessa arte zen.

O zen (meditação) pode ser praticado sem nenhuma contra-indicação. Hoje, inclusive, a meditação, que é um dos principais métodos utilizados na cultura zen, é recomendada por médicos e demais especialistas das áreas médicas, como forma de resolver problemas crônicos de saúde e várias doenças psicossomáticas*.

Para os doutores Jou Eel Jia, Norvan Martino Leite e Lilian Fumie Takeda, “meditação é um meio de abrir nossa vida para chegar ao próprio Eu, ao Eu profundo e autêntico, usufruindo assim a grande riqueza que existe em cada um de nós.”

De acordo com as considerações dos doutores “(…) a meditação não deve ser considerada como prática esotérica restrita a certas pessoas, ocasiões, locais ou grupos religiosos.”

“Quando conseguimos avançar a um estado meditativo ficamos uno com o universo e o dualismo desaparece. Então, o estado meditativo é uma saída para a compreensão de que a verdadeira vida não se resume a comer, beber, procriar, dormir, viajar, ganhar dinheiro, ter propriedades.”

Para os escritores David Scott e Tony Doubleday que fizeram “O Livro de Ouro do Zen”, na essência, o zen não se ocupa com o modo de nos conduzirmos na sociedade, porém, um dos resultados do ensino zen é começarmos a diminuir a distinção dualística que fazemos entre nós. A proposta então é mostrar que a prática cotidiana da meditação nos traz algo benéfico que é comprovado pela esfera científica mundial. Então ter o zen como filosofia de vida é ser inteligente consigo mesmo, pois ela só traz benefícios.

Meditar, acalmar a mente, respirar profundamente são as melhores portas para se aperfeiçoar pessoalmente. Essas técnicas ajudam a desenvolver o autocontrole e a concentração, combate o estresse, que é um dos fatores que mais preocupa a sociedade atual, além de permitir ver o mundo de forma mais clara.

Dessa forma “podemos dizer que o zen lida com os fatos, o que é aparentemente simples, mas quando compara a nossa mente a um espelho limpo, que reflete o que dele se acerca, verificamos que conseguir essa condição não é nada fácil devido à enorme quantidade de pensamentos que povoam a mente”, diz Vera Lúcia Sugai no livro “O Caminho do Guerreiro.”

Aqui outro pensamento ilustra de forma clara o que queremos dizer com o espelho limpo.

Um mestre, respondendo a uma pergunta sobre o seu método disciplinar zen, disse:

_ Quando estou com fome, como. Quando estou cansado durmo.

_ Mas isso não é o que todo mundo faz. Assim podemos considerar que eles também estão se exercitando dessa mesma forma, retrucou.

_ Não – voltou a responder, e completou com a seguinte explicação:

_ Porque quando eles comem, não estão comendo e sim pensando em várias coisas, deixando-se portanto perturbar por vários pensamentos. Quando eles dormem, não estão dormindo, e sim sonhando com mil e uma coisas. Essa é a razão porque não são como eu.

Mesmo não sendo fácil atingir tal estágio, podemos dizer que da dificuldade surge a recompensa e todos os especialistas no assunto são categóricos em dizer que esta recompensa é bastante farta.

*Tao – o caminho, o sentido, a providência, a essência e a vida.

* Doenças psicossomáticas – doenças de ordem psicológica 

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