O jiu-jitsu é atualmente uma das artes marciais mais respeitadas e praticadas no mundo. Em Barueri, cidade que é conhecida atualmente como a “capital” da arte suave existe um praticante, em especial, que chama a atenção.

Mais precisamente no bairro de Alphaville fica uma das mais respeitadas escolas de ensino da arte na região, o Studio Demian Maia – Marcelo Manga Jiu-Jítsu.

Professor responsável pelo local, Marcelo Manga Fraguas, é amigo particular de Demian Maia 5º grau na “arte suave” e atual lutador do UFC, principal organização de MMA do planeta.

A Revista Bushido Brasil foi bater um papo com Manga, que muito calmo e com extrema serenidade, nos contou um pouco de sua vida e também algumas curiosidades do amigo.

Confira a entrevista com o mestre

REVISTA BUSHIDO BRASIL – Como surgiu a arte marcial na sua vida?

Marcelo Manga – Comecei quando eu tinha uns 9 anos no Karatê Shotokan. Depois um pouco mais crescido eu fiz Muay Thai, Boxe e bem na época que apareceu o Royce (Gracie) eu tinha começado a fazer jiu-jítsu com meu primeiro professor o Marcelo Figueiredo em Campinas. E foi ele que me influenciou totalmente. Ele é meu grande ídolo até hoje. Foi por causa dele que eu quis ser professor. Ele é sensacional. Comecei com ele quando eu tinha 18 anos e não parei mais. Foi ali que eu disse, ‘eu quero viver disso’, comecei a fazer educação física, fiz pós-graduação e tudo voltado para ser professor.

RBB – Manga, a vida de professor nesse país é tão difícil. alguma vez esse tipo de coisa
passou pela sua cabeça?

Marcelo Manga – Não nunca. Eu sabia que não ia ser fácil que era uma vida regrada de recursos financeiros, mas eu acreditava que de alguma forma eu poderia viver disso. Passei momentos difíceis, não foi fácil, mas pensar em desistir eu nunca pensei. Não tinha volta. Não tinha outra opção. Ou era isso ou isso. Minha primeira academia foi em uma casa desativada que meu avô tinha em Mogi das Cruzes. Eu era faixa azul. Eu já fazia educação física
e comecei a dar umas aulas particulares de muay thai e jiu-jítsu nesse pequeno tatame montado nessa casa. Não era uma academia. Era o pré-projeto de uma. Meu primeiro aluno foi o Rafael Marangoni que hoje desenvolve um trabalho fantástico naquela região com mais de 600 alunos. Ele foi por um bom tempo meu único aluno. Lembro que em uma oportunidade eu sofri um acidente e não podia rolar. Ele fazia aula com o saco de pancada.

RBB – E como você conheceu o Demian Maia?

Marcelo Manga – Depois que eu sai do interior eu vim morar em São Paulo na casa da minha avó. uma amiga minha me apresentou o Demian. Na academia em que o Demian dava aula na época em que nos conhecemos eu era o único faixa marrom o restante era tudo azul e branca. Era uma academia de taekwondo que tinha jiu-jítsu. Ai eu colei nele. Aonde o Demian ia eu ia junto. Ele não era do UFC nem fazia MMA, mas eu via um potencial enorme nele, afinal ele já era campeão mundial. O Demian foi muito receptivo comigo e como eu tinha o mesmo tamanho, peso e uma força e muita vontade de aprender nós treinávamos juntos. Eu
obviamente não tinha o nível dele, mas eu acabava servindo de sparing dele para, pelo menos, tentar atrapalhar o jogo dele. Ele treinava com o Leonardo Vieira e eu ia junto. E ai a gente foi ficando amigo. Passamos momentos difíceis também naquela época. Dividíamos gasolina, almoço. Lembro que em várias oportunidades comprávamos um frango e um saco de pão, sentávamos no meio fio e a gente comia ali mesmo. Ai fomos ficando amigos íntimos do dia a dia mesmo.

RBB – O amigo leitor pode não conhecer como funciona o jiu-jítsu. Você pode explicar a metodologia de graduação e quais as faixas, por favor?

Marcelo Manga – Bom antigamente era só o cara ser campeão mundial que o praticante chegava logo na faixa preta. O Demian pegou a faixa preta em quatro anos e meio, mas a Federação viu que os alunos estavam sendo graduados pela performance e a graduação não é só isso. Temos vários requisitos como a postura, a conduta, a participação, o respeito e o aprimoramento técnico que demora certo tempo. Então a média de tempo de um faixa branca para um preta é de oito até dez anos com o aluno treinando regularmente. Já com relação às faixas é o seguinte. Para as crianças é a branca, cinza, amarela, laranja e verde. Depois vem a azul quando ele completa 16 anos. Já para quem quer começar a praticar a partir dos 16 anos as faixas das crianças não contam. Então é branca, azul, roxa, marrom e preta.

RBB –Atualmente se fala muito de violência contra as mulheres, o que você pode dizer do jiu-jítsu para elas?

Marcelo Manga – Para a mulher especificamente, o jiu-jítsu acaba dando muita confiança, segurança e etc. Atualmente a quantidade de mulheres em cargos corporativos aumenta a cada dia e o jiu-jítsu acaba dando essa postura e essa confiança que elas precisam. Mas basicamente o autocontrole eu vejo como fundamental.

RBB – Nos conte uma curiosidade sua fora do tatame?

Marcelo Manga – Olha só minha vida é toda dentro do tatame (risos), mas, por exemplo, o Demian gosta muito de vinhos, ele é um verdadeiro sommelier, e eu estou começando a aprender a gostar de vinhos com ele. Toda sexta-feira a gente se encontra, claro quando dá. Então a gente se encontra para tomar um vinho. Como ele viaja bastante ele sempre traz novidades. Ele estuda muito e entende muito. Então ele me liga e diz: ‘Manga tô com um vinho novo aqui, vamos experimentar!’. Aí eu levo um queijo ou outra coisa e experimentamos. Então nossas sextas-feiras são de vinho e música. Agora ele está aprendendo a tocar violão, mas ele não sabe cantar nada. É desafinado. Eu falo meu Deus, tanto talento na luta, mas na cantoria (risos). Mas eu admiro pela persistência dele.
Ele quer tocar, o dedo dele é muito forte, acho que para tocar violão tem que ter dedo suave né? Ele tem um dedão de gorila, ele parece o homem de pedra tentando tocar, mas ele tira uma musiquinha.

RBB – Existe uma arte marcial melhor que a outra?

Marcelo Manga – Teve época que se falava muito isso né. Eu mesmo me apaixonei pelo jiu-jítsu quando eu via o Royce vencendo caras de outras artes marciais. Hoje eu não acredito mais nisso. Eu acho que todas as artes marciais são maravilhosas. Todas elas têm muito para ensinar. Claro que a competição vai sempre existir, mas eu vejo as artes hoje como algo estratégico, não mais apenas algo para você usar em épocas de guerra. Não vejo o taekwondo superior ao karatê e o kung-fu superior ao jiu-jítsu. Aliás esse tipo de pensamento não deveria mais nem existir. Isso vai nos levar a que?

RBB – Para encerrar eu gostaria de saber se você é um cara zen já que essa nossa conversa é pra seção zen do cotidiano?

Marcelo Manga – Cara eu acho que sou e muito. Sou um cara muito tranquilo. Numa comparação entre eu e minha esposa, ela é muito mais agitada do que eu. A arte marcial me deixou assim. A guerra dentro do tatame me traz uma paz muito grande para a vida.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *