A frase acima é nada mais, nada menos do que do Presidente da Federação Paulista de jiu-jítsu, o mestre 8º grau na arte suave, Otávio Almeida Junior. Antes do Campeonato Sul-americano que começou nesta sexta-feira, dia 15, no ginásio José Corrêa, em Barueri, a capital nacional da arte marcial no país, e que vai até domingo, dia 17, o mandatário concedeu entrevista ao programa “Hora do Esporte”, da secretaria de Esportes da Prefeitura de Barueri.

Durante o bate-papo de quase uma hora, mestre Otávio falou do campeonato deste final de semana, contou um pouco da história do seu pai, Mestre Otávio Almeida, um dos percursores da arte no Estado de São Paulo, e não fugiu em nenhum momento de assuntos que poderiam ser considerados polêmicos, sempre com grande polidez e um raciocínio profundamente rápido e sagaz em todas as respostas.

Mestre Otávio durante entrevista ao programa Hora do Esporte/ Fabio Oscar / SE Barueri

Sul-americano

O evento que começou nesta sexta-feira, dia 15, feriado nacional da Proclamação da República, terá mais de 2.500 atletas regularmente inscritos nas várias categorias de idades e pesos. O Staff do torneio conta com mais de 120 profissionais altamente qualificados e atentos a todas as movimentações dentro e fora dos 12 tatames simultâneos de competição.

“É um verdadeiro batalhão que trabalha com muita paixão e determinação pelo nosso esporte”, revela o presidente.

Paixão por Barueri

“Essa paixão pela cidade começou muitos anos atrás. Vim até aqui assistir a um campeonato de vale tudo, na época entre o Godoy e o Macaco que estavam com a rivalidade a flor da pele. Na hora vi que era naquele espaço que o jiu-jítsu devia fincar suas raízes. Coincidentemente fui recebido pelo Cabral aqui do meu lado. É uma parceria que já dura oito anos e toda vez que falo de Barueri eu fico babando. A cordialidade do funcionário público da cidade é algo que cativa e emociona. Antes pingávamos de local em local. Hoje Barueri e o ginásio José Corrêa é a nossa casa.”

Jiu-jítsu tradicional não existe mais

“Atualmente o que temos infelizmente é só uma parte ínfima da arte tradicional. 99% das academias do mundo não ensina o tradicional. Ficamos presos ao esporte de competição e quase nenhuma academia atualmente ensina aos alunos a parte de defesa pessoal. Hoje o nosso jiu-jítsu é só o golpe de finalização. Estamos tão atrelados com as regras que daqui a pouco só vai valer beijo em nossa arte. Por que veja só. Machuca a perna do competidor, não pode mais uma chave de tornozelo ou de joelho, bate-estaca não pode mais, machucou a cervical, não pode mais chave de cervical. Assim as regras vão ficando cada vez mais rígidas. Eu fui campeão pan-americano muitas vezes. Não tenho nenhum problema na orelha. Sabe porque? Ninguém passava minha guarda. Ninguém amassava minha orelha. Não tem esse negócio de casca-grossa. Se o competidor deixa passar a guarda é porque ele é grosso. É ruim.”

Sobre o pai

Perguntado sobre o grande legado do pai, o mestre Otávio Júnior se emocionou. “Agradeço a pergunta e a oportunidade, porque eu vivi as dificuldades do meu pai. Ele largou a faculdade de medicina no 3º ano para se dedicar as aulas da nossa arte. Ele introduziu as aulas para crianças e na época foi extremamente criticado. Diziam que jiu-jítsu era coisa para macho, era coisa para ‘pau-pereira’. Isso não é coisa para criança, isso é coisa para nego valente. E hoje a gente sabe que o celeiro são as crianças.”

Jiu-jítsu cunhado na porrada

“O jiu-jítsu conquistou seu espaço através da porrada, através do vale tudo. Todo mundo lembra do Royce Graice. Foi assim nos primeiros UFC’s. Ele entrava lá magricelo e sem desferir um único soco ganhava de todo mundo. Nosso percursor Hélio Gracie dizia que entre um soco e outro existe um espaço de tempo e era nesse espaço que você precisava entrar e abraçar o adversário. Eu já fiz karatê, judo, kung-fu, aikido, ou seja, um monte de coisa para ajudar ainda mais e complementar o meu jiu-jítsu.”

Modalidade olímpica

“O jiu-jítsu não tem plástica e é essa falta de plasticidade que tira muito da possibilidade da nossa arte se tornar olímpica. Hoje você vê uma luta, vai na cozinha faz uma pipoca, volta e é capaz do lutadores estarem na mesma posição.”

Flávio Bering

Com relação a atitude do mestre Flavio Bering que alguns anos atrás decidiu voltar para a faixa branca, mestre Otávio foi taxativo. “Eu estava lá e ele pediu a minha palavra. Entendi que ele quis simbolizar que pelo fato de ele ter chegado ao teto ele queria voltar ao chão para começar a subir novamente. Essa foi minha leitura. O dia que eu receber a minha vermelha, e não está muito longe, eu vou amarrar ela na cintura e ninguém vai tirar. Vai para o caixão comigo.”

Família Gracie

Difícil falar dos nossos percursores, mas certa vez arrumei uma indisposição com o mestre Hélio na saída de um vale tudo pois vi uma coisa que eu achei uma covardia. Eu tinha 15 anos. No outro dia ele estava almoçando na minha casa e me perguntou o que eu tinha achado. Eu disse que não gostei. Nossa meu pai queria me jogar na parede. Para ele era a supremacia. Eu não acho assim, não pratico assim. Por isso não participo de vale tudo. Se precisar eu uso, mas agora de graça ou mesmo ganhando alguma coisa eu não gosto de tomar tapa na cara.”

Ouça a entrevista completa parte 1 e 2

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